14.5.20

Meu Pai me ensinou

Esta ideia de escrever uma biografia do meu Pai é antiga. Mas só agora, em 2020, estou cuidando melhor disso. Pelo material que já tenho escrito, o livro terá 240 páginas. Como ainda preciso acrescentar muita coisa, talvez eu opte por dois volumes de 160 páginas.

O prefácio talvez seja escrito por minha irmã Rosana Marinho.

O lançamento está previsto para dezembro de 2020. 


Ainda vou acrescentar muitas lembranças da minha Mãe, dos meus irmãos, e de parentes, como os tios e tias. E também, claro, da Vó Vitalina.



Hoje é aniversário da minha Mãe. E agora me lembro das canções de ninar que ela cantava para que eu não dormisse — do Kyrie Eleison ao Noel Rosa. Eu me lembro do conselho que sempre me deu: que eu nunca deixe de ser Eu. E me lembro do dia em que eu nasci: era um dia de duplas esperanças. Era uma noite de luar azul escandaloso. Era um sábado de aleluias e esperas, de poesia e de romance. Era uma casinha de madeira e primaveras, ao lado de uma roseira branca, no finzinho de uma rua principal. Era hora de metáforas, era hora de loucuras. Como toda musa entusiasmada era fora deflorada com amor e alegria por um louco jogador — que se chamava Lúiz. Era outra vez madrugada e ela encantada outra vez. Foi então que essa Mulher sagrada decidiu me dar A Luz. E deu. Era o começo de duas histórias de Amor.


Essa foto foi feita há 13 anos. Logo, ela está hoje cerca de 19,75% mais velha. Mas continua saudável, sorridente, bem-humorada. Aliás, eu nunca a vi triste. Sempre cantando, sempre alegre, agitando as circunstâncias. Nunca brigamos, eu e ela. Nenhum tapinha, nenhum puxão de orelhas, nenhum grito. Nós dois sempre nos compreendemos um ao outro. Como sou-lhe o primogênito e (suponho) ainda o preferido, há toda uma mitologia em torno disso... rs! Acho que até Einstein explicaria melhor do que Freud essa nossa maravilhosa relação de Amor.
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Eu tava com a canequinha na mão, e minha Mãe ainda me falou:
— Toma logo!

Só depois ela sentiu o cheiro...

Mas não se desesperou. Nem saiu gritando feito louca pra chamar os vizinhos. Só lavou minha boca com sabonete Gessy.






Depois, calmamente, Ela passou uma água de colônia no meu pescoço, e descemos faceiros pela Rua São Pedro.


(...)

Só não me lembro se gostei. Mas, segundo Ela, eu nem fiz cara feia. Aliás, também segundo Ela, era impossível um menino tão bonitinho, tão lindo como eu, fazer cara feia.


Até hoje eu não consigo fazer cara feia...



Essas e outras histórias eu conto meu livro altamente biográfico:




Franz Kafka e a Bonequinha.

Aos 40 anos de idade Franz Kafka (1883-1924), que nunca se casou e não tinha filhos, passeava por um parque de Berlim quando viu uma criança que chorava porque tinha perdido sua boneca favorita. Então Kafka ajudou a menina a procurar a boneca.

Sem sucesso.

Kafka então disse-lhe para se encontrarem lá no dia seguinte, para eles voltarem a procurar a tal bonequinha.

No dia seguinte, quando ainda não tinham conseguido encontra a boneca, Kafka deu à garota uma carta supostamente "escrita" pela boneca que dizia, mais ou menos assim:

"Por favor, não chores. Eu tive que fazer uma viagem para conhecer o mundo. Mas vou te escrever sobre as minhas aventuras."

A menina adorou a cartinha...

Então começou uma história que continuou até o fim da vida de Kafka.

Durante os encontros, Kafka leu as cartas da boneca cuidadosamente escritas com aventuras e conversas que a garota achava adoráveis.

Finalmente, Kafka trouxe-lhe a boneca (comprou uma) que tinha voltado a Berlim.

"Não se parece nada com a minha boneca", disse a garota.

Kafka entregou-lhe outra carta em que a boneca escrevia: "Ah! É que depois de tantas viagens eu fiquei diferente..." A garota então abraçou a nova boneca, e trouxe-a toda feliz para casa.

Um ano depois, Kafka morreu.

Muitos anos depois, a garota, agora já adulta, encontrou uma cartinha dentro da boneca. Na pequena carta assinada por Kafka, dizia:

"Tudo o que você ama provavelmente será perdido, mas no final o amor voltará de outra forma."

(...)

Editei um pouco o texto acima hoje, 13.06.20. Mas é de um livro de Jordi Sierra i Fabra, com base em relatos de Dora Dymant, companheira de Kafka.




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